Freqüência e critérios para indicar a episiotomiaEsta é a versão em html do arquivo http://www.ee.usp.br/reeusp/upload/pdf/9.pdf. G o o g l e cria automaticamente versões em texto de documentos à medida que vasculha a web. Para criar um link para esta página ou armazenar referência a ela, use: http://www.google.com/search?q=cache:nlg_-urXRpIJ:www.ee.usp.br/reeusp/upload/pdf/9.pdf+episiotomia&hl=pt-BR&gl=br&ct=clnk&cd=10 O Google não é associado aos autores desta página nem é responsável por seu conteúdo. Os seguintes termos de pesquisa foram destacados: episiotomia Page 1 Rev Esc Enferm USP2005; 39(3):288-95.288Sonia Maria J.V. de OliveiraElaine Cristina MiquiliniSonia Maria Junqueira V. de Oliveira1, Elaine Cristina Miquilini2RESUMOTrata-se de estudo exploratóriocom o objetivo de identificar afreqüência, os tipos e os critériosadotados para indicar a episio-tomia. Foram entrevistados 12médicos e 12 enfermeiras queprestam assistência à parturienteno Hospital Universitário daUniversidade de São Paulo. Aepisiotomia ocorreu em 76,2%dos partos normais; as indicaçõesmais freqüentes foram: rigidezperineal (28,7%), primiparidade(23,7%), feto macrossômico(11,9%), prematuridade (10,2%).O tipo mais citado foi médio-lateral direito (92,0%), justificadopor: aprendizado durante aformação acadêmica (25,9%), seradotada rotineiramente (19,4%),menor chance de lesar o esfíncteranal (16,1%), menor risco decomplicações (16,1%). É necessá-rio rever as práticas de atendi-mento à parturiente, considerandoas evidências científicas econdutas individualizadas.DESCRITORESEpisiotomia.Parto normal.Períneo.ABSTRACTThis is an exploratory studyaimed at identifying thefrequency, the types and thecriteria adopted to recommendepisiotomy. Twelve doctors and12 nurses who attend womengiving birth at the University ofSão Paulo’s Hospital Universi-tário were interviewed. Episioto-my was performed in 76.2percent of the normal births; themost frequent indications were:perineal rigidity (28.7 percent),primiparity (23.7 percent),macrossomic infant (11.9percent) and prematurity (10.2percent). The most mentionedtype was the right medium-lateral(92.0 percent), and the justi-fications were: it was learnedduring academic formation (25.9percent); it is adopted routinely(19.4 percent); with it there is alesser chance for causing lesionsto the anal sphincter (16.1percent); with it there is a lesserrisk of complications (16.1percent). The practices forattending women giving birthmust be revised taking intoaccount scientific evidences andindividualized conducts.KEY WORDSEpisiotomy.Natural childbirth.Perineum.RESUMENTrata-se de estudo exploratóriocom o objetivo de identificar afreqüência, os tipos e os critériosadotados para indicar a episioto-mia. Foram entrevistados 12médicos e 12 enfermeiras queprestam assistência à parturienteno Hospital Universitário daUniversidade de São Paulo. Aepisiotomia ocorreu em 76,2%dos partos normais; as indicaçõesmais freqüentes foram: rigidezperineal (28,7%), primiparidade(23,7%), feto macrossômico(11,9%), prematuridade (10,2%).O tipo mais citado foi médio-lateral direito (92,0%), justificadopor: aprendizado durante aformação acadêmica (25,9%), seradotada rotineiramente (19,4%),menor chance de lesar o esfíncteranal (16,1%), menor risco decomplicações (16,1%). É neces-sário rever as práticas de atendi-mento à parturiente, consi-derando as evidências cientí-ficas e condutas individualizadas.DESCRIPTORESEpisiotomia.Parto normal.Períneo.Recebido: 25/09/2003Aprovado: 15/03/2004RELATODEPESQUISAFREQUENCYAND CRITERIAFOR THE INDICATION OF EPISIOTOMYFRECUENCIAYCRITERIOS PARAINDICAR LAEPISIOTOMÍAFreqüência e critériospara indicar a episiotomia1 Professora Doutora doDepartamento deEnfermagem Materno-Infantil e Psiquiátricada Escola de Enfermagemda USP (EEUSP).soniaju@usp.br2 Enfermeira do PSF deNovo Horizonte.emiquilini@yahoo.com.br Page 2 Rev Esc Enferm USP2005; 39(3):288-95.Freqüência ecritérios paraindicar a episiotomia289INTRODUÇÃOA partir do século XVIII, houve um crescenteinteresse da medicina pela reprodução, e a entradados homens no quarto de parir coincidiu com aincorporação da prática obstétrica, cirúrgica, àmedicina. Esse fato trouxe um aumento da mortali-dade das mães e crianças, provocada sobretudopela febre puerperal, pelo uso de instrumentos epela prática da cesárea(1-2). Assim, o parto foi ad-quirindo o caráter patológico, sendo necessáriopara seu manejo a hospitalização da mulher.Atualmente, a episiotomia é um dos procedi-mentos mais comuns em obstetrícia, sendo supe-rado apenas pelo corte e pinçamento do cordãoumbilical(2). Aepisiotomia foi sugerida para auxiliaros partos vaginais complicados. No entanto, co-meçou a ser recomendada sistematicamente pordois eminentes ginecologistas, sendo o primeirodeles Pomeroy, que em 1918 escreveu um artigointitulado “Deveríamos cortar e reparar o períneode todas as primíparas?”. Em 1920, De Lee sugere autilização do fórcipe profilático acompanhado deuma episiotomia médio-lateral precoce(3).Entre 1915 e 1925, a episiotomia era usada demodo profilático, como justificativa para evitar trau-mas perineais e prevenir a morbimortalidade infan-til e problemas ginecológicos, tais como retocele,cistocele e relaxamento da musculatura pélvica(4).Esse modelo vem sendo adotado e ensinado pelaobstetrícia brasileira como uma das muitas condu-tas bem estabelecidas e universalmente aceitas;sendo justificado pelos autores para prevenir osuposto afrouxamento pélvico irreversível doparto. Sabe-se que o tônus da musculatura da va-gina depende mais do exercício e da consciênciada mulher, de sua contração e do relaxamento, doque de cirurgias de rotina(5).A justificativa habitual para o uso da episio-tomia inclui a prevenção do trauma perineal seve-ro, de danos do assoalho pélvico, de prolapso e deincontinência urinária. No entanto, apesar do usolargamente difundido, não há evidências científi-cas que suportam esses benefícios(6-8).Episiotomia é uma incisão cirúrgica na regiãoda vulva, com indicação obstétrica para impedir oudiminuir o trauma dos tecidos do canal do parto,favorecer a liberação do concepto e evitar lesõesdesnecessárias do pólo cefálico submetido à pres-são sofrida de encontro ao períneo(9). A incisãocostuma ser feita quando a cabeça fetal está sufici-entemente baixa, a ponto de distender o períneo,porém, antes de ocorrer uma distensão exagerada.Também não pode ser realizada cedo demais, pois,deve-se prevenir um sangramento excessivo(10).A episiotomia pode ser lateral, médio-lateral emediana, neste caso denominada de perineotomia.A episiotomia lateral está abandonada por seusinconvenientes, pois essa região, além de muitovascularizada, ainda pode lesar os feixes internosdo músculo elevador do ânus. A episiotomia mé-dio-lateral é a mais usada, e a incisão abrange pele,mucosa vaginal, aponeurose superficial do períneoe fibras dos músculos bulbocavernoso e do trans-verso superficial do períneo e algumas vezes, fi-bras internas do elevador do ânus. A episiotomiamediana apresenta como vantagens menor perdasangüínea, é fácil de reparar, maior respeito à inte-gridade anatômica do assoalho muscular, menordesconforto doloroso e raramente é acompanhadade dispareunia(10-11).Admite-se que a episiotomia, além de provocarmaior perda sangüínea, não previne posteriorestranstornos do assoalho pélvico, podendo em al-guns casos aumentá-los(2). Estudo com 2.188 par-tos consecutivos, na Dinamarca, classificou asparteiras de acordo com suas taxas de episiotomias:parteiras com baixas taxas (22,0%), parteiras comtaxas médias (40,0%) e parteiras com altas taxas(55,0%), sendo que as mulheres assistidas por par-teiras com baixas taxas conservavam com maiorfreqüência o períneo íntegro (37,5% contra 25,5%dos demais grupos). Um fator importante a sermencionado é que cerca de 45,0% das mulhereseram primíparas(12).Analisando-se os dados sobre os partos denulíparas, constatou-se que lacerações profundasdo períneo ocorreram em maior número nas mulhe-res que foram submetidas à episiotomia, concluin-do que o uso seletivo de episiotomia poderiaminimizar os traumas dos partos normais emnulíparas(13). Até onde se tem conhecimento dasseqüelas da episiotomia, a longo prazo, como in-continência urinária e dispareunia, independem douso restrito ou liberal do procedimento(2). Mulhe-res que tiveram episiotomia de rotina apresenta-ram piora na função sexual em relação àquelas quenão foram submetidas ao procedimento, portanto,não há evidência que o uso rotineiro de episiotomiatenha efeito benéfico(14).Outro fator que aumenta a taxa de episiotomiaé manter a mulher deitada, uma vez que implica noaumento da duração do trabalho de parto e do ris-co de sofrimento fetal, pela diminuição da intensi-dade e da eficácia das contrações. Na posiçãodorsal horizontal, há pressão da veia cava inferior,que diminui o fluxo sangüíneo de oxigênio para o Page 3 Rev Esc Enferm USP2005; 39(3):288-95.290Sonia Maria J.V. de OliveiraElaine Cristina Miquilinifeto. Como é mais desconfortável ficar deitada, atendência é o aumento da tensão e da dor, o queestimula a solicitação da anestesia(15).Em estudo prospectivo de 2.144 partos reali-zados na Suécia encontrou-se taxa de infecçãosignificativamente mais elevada (p<0,001) no gru-po de mulheres submetidas à episiotomia (10,2%),comparadas às que tiveram laceração espontâ-nea ( 2,4%) e que nos últimos anos, alguns auto-res têm questionado o uso rotineiro da episio-tomia(16). Após análise de 356 partos de prímiparase 341 de multíparas, concluíram que a episiotomiadeveria ser adotada com restrição, apenas noscasos onde houvesse indicações específicas paramãe e feto(7).Em 1996, peritos em obstetrícia da Organiza-ção Mundial da Saúde (OMS) publicaram o “GuiaPrático para Assistência ao Parto Normal” com baseem 218 estudos, que apontam as melhores evidên-cias científicas, classificaram as práticas relacio-nadas ao parto normal em quatro categorias:Categoria A: Práticas demonstradamente úteis eque devem ser estimuladas;Categoria B: Práticas claramente prejudiciais ouineficazes e que devem ser eliminadas;Categoria C: Práticas em relação às quais nãoexistem evidências suficientes para apoiar umarecomendação clara e que devem ser utilizadascom cautela, até que mais pesquisas esclareçama questão;Categoria D: Práticas freqüentemente utilizadasde modo inadequado. O uso liberal ou rotineiroda episiotomia está classificado na CategoriaD(17).Essa publicação afirma ainda quenão existem evidências confiáveis que o usoliberal ou rotineiro da episiotomia tenha um efei-to benéfico, mas há evidências claras de quepode causar dano. Num parto, até então nor-mal, pode ocasionalmente haver uma indica-ção válida para uma episiotomia, mas reco-menda-se o uso limitado dessa intervenção.Complementa que os sinais de sofrimento fetal, aprogressão insuficiente do parto e a ameaça delaceração de 3º grau, incluindo laceração de 3ºgrau em parto anterior, são indicações para reali-zar a episiotomia. A ocorrência de laceraçõesperineais é freqüente em partos normais, porémlacerações de 1º grau às vezes não necessitam desutura, enquanto lacerações de 2º grau podemser suturadas e, em geral, cicatrizam sem compli-cações. Já as lacerações de 3º grau podem terconseqüências mais sérias com problemas defístulas ou incontinência fecal(17).Muitos estudos têm avaliado as práticas etécnicas relativas ao período expulsivo, com oobjetivo de diminuir as intervenções desneces-sárias e a morbimortalidade materno-fetal. Nessesentido, atuando na assistência à parturiente,sentimos necessidade de realizar um estudo paraconhecer as indicações e os fatores que influen-ciam na decisão dos profissionais para realizar aepisiotomia.OBJETIVOS•Verificar a freqüência de episiotomia nospartos espontâneos;•Identificar os critérios adotados para indi-car a episiotomia;•Identificar quais os tipos de episiotomiaadotados.METODOLOGIATipo de estudoÉ um estudo quantitativo, descritivo etransversal.LocalEste estudo foi desenvolvido no HospitalUniversitário da Universidade de São Paulo (HU-USP).PopulaçãoA população foi constituída por médicos obs-tetras e enfermeiras obstétricas que prestam as-sistência à parturiente no Centro Obstétrico (CO),o qual conta com 12 enfermeiras obstétricas e29 médicos. O total de enfermeiras que participa-ram deste estudo, foi igual ao número de médi-cos, os quais foram selecionados por amostragemacidental.Procedimento de coleta de dadosFoi consultado o livro de registro dos partosno CO, para verificar a freqüência de rotura, inte-gridade perineal e realização da episiotomia nospartos normais, durante o mês de outubro de2000. Para esta pesquisa foi utilizado um questi-onário semi-estruturado composto de questõesabertas e fechadas. Acoleta de dados teve inícioapós ser obtida a permissão para realizar o estu- Page 4 Rev Esc Enferm USP2005; 39(3):288-95.Freqüência ecritérios paraindicar a episiotomia291EMLDÍntegrorotura 1 graurotura 2 graudo junto às comissões de ética e pesquisa doHU-USP. Uma das pesquisadoras fez contato comas 12 enfermeiras e 12 médicos, em seus respecti-vos turnos de trabalho e a entrevista só ocorreuapós a assinatura do documento “consentimentolivre e esclarecido para participar de pesquisa ci-entífica”. Também foi garantido o anonimato dosparticipantes.Tratamento dos dadosOs resultados, apresentados na forma de grá-ficos e tabelas, foram analisados em função desua freqüência absoluta e índices percentuais.As questões abertas foram agrupadas e classifica-das, segundo o conteúdo e analisadas de formadescritiva.RESULTADOS E DISCUSSÃOOs dados apontam que dos 255 partos ocorri-dos no mês de outubro de 2000, 47,8% foram par-tos normais, 36,9% cesáreas e 15,3% fórcipes. Dototal de 122 partos normais, em 76,2% foram reali-zadas EMLD, em 10,6% o períneo manteve-se ínte-gro, em 9,0% ocorreram rotura de 1º grau e 4,1% de2º grau, conforme mostra a Figura 1. Nesse períodonão houve nenhum caso de rotura de 3º grau, quepoderia ter conseqüências mais sérias para a mu-lher. Convém mencionar que dos partos normais41,6% (42) eram de primigestas e constatou-se quea episiotomia foi praticada na maioria deles (95,2%).Figura 1. Condições perineais no partoFigura 1. Condições perineais no partoFigura 1. Condições perineais no partoFigura 1. Condições perineais no partoFigura 1. Condições perineais no partonormal. São Paulo, 2000.normal. São Paulo, 2000.normal. São Paulo, 2000.normal. São Paulo, 2000.normal. São Paulo, 2000.De acordo com a publicação da OMS, lacera-ções de 1º grau às vezes não necessitam de sutura,portanto, no atual estudo, dos partos que não fo-ram realizadas episiotomia é de se supor que ape-nas nas roturas de 2.0grau (4,1%) haveria necessi-dade de sutura(17). A principal justificativa paraadoção rotineira da episiotomia em todas asprímiparas é a prevenção de laceração perineal, deposterior relaxamento do assoalho pélvico e de trau-ma contra a cabeça fetal(18). Essas autoras comen-tam que conseguiram reduzir a necessidade deepisiotomia de um hospital-escola, mesmo emprimíparas, adotando a deambulação livre duranteo trabalho de parto.Merece destacar que, se a episiotomia estáindicada para todas as primíparas, assim como paraas multíparas com episiotomia anterior, então esseprocedimento acaba sendo praticado quase queem todos os partos, como rotina hospitalar, semanalisar outros fatores como vantagens e desvan-tagens para cada parturiente.Um ensaio randomizado controlado realizadocom 2.606 mulheres argentinas, no período de agos-to de 1990 a julho de 1992, concluiu que o uso roti-neiro de episiotomia deveria ser abandonado e ta-xas deste procedimento acima de 30% não podemser justificadas(6). A freqüência ideal de episio-tomia, de acordo com os ensaios clínicos, deveriasituar-se entre 10 e 30%. Há dúvida quanto à taxaideal, mas em muitos países está ocorrendo umaimportante redução nas taxas de episiotomia(3).Tabela 1: Critérios para indicar a episioabela 1: Critérios para indicar a episioabela 1: Critérios para indicar a episioabela 1: Critérios para indicar a episioabela 1: Critérios para indicar a episio-tomia no parto normal. (São Paulo, 2000)* Cada profissional citou um ou mais critérios.Conforme os dados da Tabela 1, o critério maiscitado pelos médicos e enfermeiras obstétricas pararealizarem esse procedimento foi a rigidez perineal28,7% (17), seguido pela primiparidade 23,7% (14)e feto macrossômico 11,9% (7). Acategoria rigidezperineal inclui citações como:elasticidade do períneo, distensão perineal,condições do períneo, musculatura rígida, mádistensibilidade e resistência perineal.Esses resultados contrastam com os dadosdo estudo de outro estudo(19)sobre sutura do trau-ma perineal no parto normal, que encontroufreqüência mais elevada de rigidez perinealsoirétirCsoirétirCsoirétirCsoirétirCsoirétirCN%laenirepzedigiRedadirapimirPocimôssorcamoteFedadirutamerPorgetníoeníreProiretnaaimotoisipEacivlépoãçatneserpAotrucoeníreParutoredaicnênimIsortuO7141764322227,827,329,112,018,61,54,34,34,34,3latoT*95001 Page 5 Rev Esc Enferm USP2005; 39(3):288-95.292Sonia Maria J.V. de OliveiraElaine Cristina Miquilini(47,6%) e menores taxas de macrossomia fetal(4,8%) e prematuridade (2,4%) na indicação daepisiotomia.Resultados diferentes da presente pesquisatambém foram observados(16), constatando, en-tre as indicações mais citadas para realizar aepisiotomia, a iminência de laceração e a asfixiafetal com 35,0% e 33,0% na primípara, 46,9% e31,9% na multípara, respectivamente. Esses au-tores também verificaram que a episiotomia foiexecutada em 40,1% das primíparas e em apenas9,9% das multíparas. Da mesma forma, em estudofeito com 186 parteiras, as indicações para reali-zar a episiotomia foram o sofrimento fetal (63%),seguidos pela rotura iminente (49%) e períneorígido (40%)(20).A justificativa para o fato de a episiotomia serpraticada, na maioria dos partos vaginais, podeser a orientação dada nos livros textos de obste-trícia. Por exemplo, a obra de Jorge de Rezendeque é amplamente utilizada pelos profissionaisda área de obstetrícia e indica a episiotomia quan-do o períneo apresenta pouca elasticidade. Esteautor(9)afirma que esse procedimento seria qua-se sempre indispensável nas primiparturientes enas multíparas que já foram episiotomizadas. Es-ses dois últimos critérios também foram referidospelos profissionais do atual estudo. Pode-se,pois, verificar que a maioria dos profissionaisadotam os critérios transmitidos nos livros deobstetrícia.Chama atenção que 6,8% dos profissionaiscitaram o períneo íntegro como critério de indica-ção da episiotomia, corroborando a afirmaçãoanteriormente referida(9). Nesse sentido, pode-seconcluir que em todos partos normais haverianecessidade de indicar a episiotomia.Outro critério apontado no presente estudofoi a questão do feto macrossômico. Na pesqui-sa sobre as taxas de episiotomia, rotura e integri-dade perineal em partos normais assistidos porenfermeiras obstétricas no Hospital Geral deItapecirica da Serra, verificou-se que as maiorestaxas de mulheres episiotomizadas foram daque-las que tiveram recém-nascidos (RN) que pesa-vam entre 3.005 a 3.500 gramas (37,6%)(22). Dasmulheres que mantiveram o períneo íntegro,38,6% tiveram RN entre 3.005 e 3.500 gramas,30,3% entre 2.505 e 3.000 gramas e 14,8% entre3.505 e 4.000 gramas. Quanto às mulheres queapresentaram rotura de 1.0grau 45,3% e de 2.0grau, os RNs pesavam de 3.005 a 3.500 gramas.Concluí-se que, obedecendo a critérios individu-ais, não limitados à paridade, idade materna e pesodo RN, é possível reduzir a taxa de episiotomiade rotina.A prematuridade citada, por seis profissio-nais, como critério para executar a episiotomia,geralmente, é indicada como um procedimentoque encurta o período expulsivo, evitando, des-se modo, a compressão da cabeça fetal durante otrajeto pelo canal de parto. No entanto, não foicomprovado científicamente que realizar a episio-tomia previne os traumas cranianos do conceptoe os estudos que avaliaram a duração do períodoexpulsivo relatam abreviação variando de um anove minutos(3).Na categoria outros foram incluídas citaçõescomo evitar compressão cefálica e tempo dispo-nível na sala de parto.Tabela 2 - Medidas adotadas pelos pro-abela 2 - Medidas adotadas pelos pro-abela 2 - Medidas adotadas pelos pro-abela 2 - Medidas adotadas pelos pro-abela 2 - Medidas adotadas pelos pro-fissionais para proteger o períneo quan-do não é realizada a episiotomia. (Sãodo não é realizada a episiotomia. (Sãodo não é realizada a episiotomia. (Sãodo não é realizada a episiotomia. (Sãodo não é realizada a episiotomia. (SãoPaulo, 2000)Paulo, 2000)Paulo, 2000)Paulo, 2000)Paulo, 2000)soirétirCsoirétirCsoirétirCsoirétirCsoirétirCN%oenírepodoãçnetnoc/oãçetorPotpurbaotnemidnerpsedrativEociláfecolópodoeníreporaegassaMoeníreporacifirbuLraredomarapeãmaratneirOavislupxeaçrofaoeníreporaxiabAalucrúfaramixorpAotnemaoroconoteforanoicartrativEotnemidnerpsedoetnarud91113222114,648,623,79,49,49,44,24,2latoT*95001* Cada profissional citou uma ou mais medidas.As medidas mais citadas foram a proteção doperíneo, 46,4% (19), e evitar o desprendimentoabrupto do pólo cefálico, 26,8% (11). Na primeiracategoria foram incluídas citações como utiliza-ção de compressa com leve compressão, prote-ção com as mãos, contenção e apoio perineal.Segundo a publicação da OMS, muitos livrosdescrevem a prática de proteção do períneo du-rante o parto da seguinte forma: os dedos de umadas mãos do parteiro apoiam o períneo, enquan-to a outra mão faz uma leve pressão sobre a cabe-ça para controlar a velocidade de coroamento,tentando evitar ou reduzir os danos perineais.Entretanto, afirma que é possível com essa mes-ma manobra evitar uma laceração de períneo, mastambém pode ser que a pressão sobre a cabeçafetal impeça o seu movimento de extensão e a Page 6 Rev Esc Enferm USP2005; 39(3):288-95.Freqüência ecritérios paraindicar a episiotomia293afaste do arco púbico em direção ao períneo, au-mentando assim a possibilidade de lesão doperíneo. Concluem que não há evidências sufici-entes sobre os benefícios desse método(17).Estudo experimental, randomizado e controla-do, comparou a técnica intervencionista de prote-ção do períneo e a técnica expectante, com o obje-tivo de avaliar o trauma perineal(22). Observou quenão houve diferença estatística na freqüência delaceração do períneo em função da técnica usada.Conclui que a prevenção do trauma perineal podeestar mais associada à posição da mãe durante oparto, ao uso de ocitócicos, ao tipo de puxo e aosuporte emocional oferecido à parturiente do queà técnica de proteção do períneo.Para melhor atender aos interesses maternos eperinatais, a liberação cefálica deve ser lenta e pre-cedida de manobras que forcem ao máximo a flexãoda cabeça, reduzindo a circunferência de despren-dimento. Deve-se solicitar que a parturiente pro-mova esforços expulsivos com a boca aberta, re-duzindo assim a intensidade dos esforços, e per-mitindo o desprendimento final da apresentaçãode forma lenta(11).Outra medida de proteção do períneo referidapelos profissionais no presente estudo foi a mas-sagem perineal, durante o final do períodoexpulsivo, tentando relaxar os tecidos. Descreve-se que a massagem pode ser feita por meio de mo-vimentos circulares largos na vagina e de abaixa-mento, usando os dedos médio e indicador18). Osresultados de estudo prospectivo e randomizadodemonstraram redução de 6,1% nas taxas de roturasde 2º e 3º graus e de episiotomias no grupo em quefoi realizada massagem quando comparado com ogrupo em que não foi feito o procedimento(23).Tabela 3 - Tabela 3 - Tabela 3 - Tabela 3 - Tabela 3 - Tipo de episiotomia adotadaipo de episiotomia adotadaipo de episiotomia adotadaipo de episiotomia adotadaipo de episiotomia adotadapelos profissionais. (São Paulo, 2000)pelos profissionais. (São Paulo, 2000)pelos profissionais. (São Paulo, 2000)pelos profissionais. (São Paulo, 2000)pelos profissionais. (São Paulo, 2000)tos ocorridos, a episiotomia realizada foi médio-lateral, exceto em 14 casos(16).A perineotomia respeita mais a anatomia damulher quando comparada à episiotomia médio-lateral, pois atinge apenas a pele, a mucosa vaginale as fáscias superficiais e profundas do períneo,conforme explicação citada na Introdução(11).Tabela 4 - Justificativas apontadas pelosabela 4 - Justificativas apontadas pelosabela 4 - Justificativas apontadas pelosabela 4 - Justificativas apontadas pelosabela 4 - Justificativas apontadas pelosprofissionais para adotarem a EMLD.profissionais para adotarem a EMLD.profissionais para adotarem a EMLD.profissionais para adotarem a EMLD.profissionais para adotarem a EMLD.(São Paulo, 2000)(São Paulo, 2000)(São Paulo, 2000)(São Paulo, 2000)(São Paulo, 2000)opiT opiT opiT opiT opiTN%DLMEanaideM3220,290,8latoT*52001* Um profissional citou 2 tipos.Em relação ao tipo de episiotomia adotado pe-los profissionais , a maioria, 92% (23) apontou aepisiotomia médio-lateral direita (EMLD). Aepisiotomia do tipo mediana, também denominadaperineotomia foi apontada por apenas dois profis-sionais, sendo que um deles indicou também aEMLD. Dados semelhantes a este estudo foramobservados verificando-se que dentre os 410 par-savitacifitsuJsavitacifitsuJsavitacifitsuJsavitacifitsuJsavitacifitsuJN%acimêdacaoãçamrofanodazidnerpAetnemarienitoradatodasiaMlanaretcnífseraseledecnahcroneMseõçacilpmocedocsirroneMarutusanedadilicaFaicnêirepxeroiaMotrucoeníreP86554219,524,911,611,619,214,62,3latoT*13001Pode-se observar, nos dados da Tabela 4, quegrande número das justificativas (64,6%) referidaspara escolha da EMLD foram direcionadas às van-tagens para os profissionais, tais como, a influên-cia do aprendizado durante a formação acadêmica(25,9%), mais adotada rotineiramente (19,4%), faci-lidade na sutura (12,9%) e maior experiência (6,4%);as vantagens para as mulheres foram apontadascom menor freqüência (35,4%), a saber, menorchance de lesar o esfíncter anal (16,7%), menor ris-co de complicações (13,3%) e períneo curto (3,2%).Chama atenção a grande influência da formaçãoacadêmica, apontada em um quarto das respostas.Considerando-se que o local de estudo é um hospi-tal-escola, pode-se concluir que essa influência serárepassada para as próximas turmas de formandos.Dados semelhantes foram observados, encon-trando-se maior dependência da educação profis-sional em oposição aos critérios médicos, dentreos fatores que influenciam a decisão de executar aepisiotomia(24).De acordo com os resultados do estudo feitoem 2.172 partos, não houve a realização da episio-tomia em 1.357 partos, no entanto, 14 dentre estes,apresentaram rotura de esfincter anal, e dos 815com episiotomia médio-lateral, 25 tiveram lesão doesfincter anal. Portanto, mesmo sendo feita aepisiotomia médio-lateral, as lesões do esfincteranal foram três vezes mais freqüentes em parturi-entes com episiotomia(12).Os dois profissionais que citaram o tipo media-no, apontaram como critérios de escolha a melhor* Cada profissional apontou uma ou mais justificativas. Page 7 Rev Esc Enferm USP2005; 39(3):288-95.294Sonia Maria J.V. de OliveiraElaine Cristina Miquilinicicatrização e reconstituição anatômica, além demenor chance de traumatismo, sangramento,deiscência, infecção e dor. Não obstante, um de-les admite que, apesar de todos os pontos favo-ráveis à episiotomia mediana, costuma adotar aEMLD por hábito.Segundo outro estudo(3), a EMLD está asso-ciada a menor índice de lacerações de 3º e 4º grausdo que a episiotomia mediana, mas também é cer-teza que apresenta maior dificuldade técnica dereparação, é mais dolorosa no pós-parto e apre-senta maior perda sangüínea. Esses autores re-comendam que até que se obtenha estudos con-clusivos, cada profissional deve escolher o mé-todo que considera mais adequado.De acordo com nossos dados, a episiotomiaainda é um procedimento de rotina na materni-dade estudada, apresentando altas taxas(76,3%), índices superiores aos recomendadospela publicação da OMS(17). Essa freqüência ele-vada de episiotomia pode estar relacionada como fato do local do estudo ser um hospital-esco-la, portanto, os profissionais realizam esse pro-cedimento com a finalidade de ensino. Outrofator que pode estar relacionado é o decúbitodorsal adotado pela parturiente durante o perí-odo expulsivo e o uso abusivo de indução doparto. Afirma-se que essa posição aumenta atensão do períneo durante a passagem do fetopelo canal do parto(25).Por último, percebe-se a influência da forma-ção acadêmica desses profissionais sobre o usorotineiro da episiotomia. Culturalmente, nãorealizá-la é sinônimo de má assistência obstétricano hospital. Comenta-se ter conseguido reduziras taxas de episiotomia de 80% para 35%, no Hos-pital Santa Marcelina, incorporando um progra-ma de implementação de qualidade e educaçãocontinuada, com inauguração de suítes de par-tos que favorecem o parto natural e, além disso,liberando estatísticas e índices individualizadosaos médicos e enfermeiros visando asensibilização desses profissionais(26).CONSIDERAÇÕES FINAISCom este estudo, foi possível observar que aepisiotomia é realizada sem um enfoque seletivo.Atualmente, a taxa de episiotomia está diminuin-do em todos os países, porém, devido à forma-ção, por rotina e até mesmo os poucos estudossobre o assunto, esse procedimento ainda pre-valece em muitos hospitais como o local do pre-sente estudo.O uso rotineiro da episiotomia não está rela-cionado à redução da morbidade materna e fetal.É necessário um programa de educação continu-ada, mostrando aos profissionais estudos sobreas vantagens e desvantagens da episiotomia eformas de respeitar critérios individuais de indi-cação para o referido procedimento. Com basenas evidências científicas, a episiotomia está as-sociada ao maior risco de laceração severa, logo,os profissionais devem buscar práticas alternati-vas para prevenir o trauma perineal, como posi-ção lateral durante o expulsivo; puxo espontâ-neo, em contraposição ao dirigido; redução douso indiscriminado de ocitocina e massagemperineal no final da gestação.Outro fator que poderia contribuir para dimi-nuir o índice de episiotomia seria um reajusteno olhar do profissional, isto é, ter como princí-pio que o parto normal é um processo fisiológi-co, devendo existir uma justificativa para inter-ferir no trabalho de parto e nascimento, obser-vando o paradigma não intervencionista. É ne-cessário rever as práticas de atendimento à par-turiente, considerando as evidências científicase condutas individualizadas. Nesse sentido, hánecessidade de estimular modelos de atendimen-tos mais humanizados, respeitando a singulari-dade de cada parturiente.REFERÊNCIAS(1) Rezende J. 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